Illustration by Divyakshi Kedia

The Devil’s Gospel (English)

Long ago, this region used to be a great forest. No one told me this, because my mother doesn’t speak. It rained a lot then. Later, it became a green, green desert, and for many years, people lived well and richly because of it. It rained less. One day, the rain didn’t come when it what supposed to and we waited another two years before it finally came. The bigger plants didn’t survive long after that, our animals died quickly, and families split. The earth is brown now, sandy. The rains come only sparsely, and they don’t follow the seasons anymore. Sometimes it rains when it’s hot, sometimes when it’s cold, and when it rains, it rains for months and it can kill all our remaining plants. We exist alone in this place, in this great border between the lands of the north, where we go to trade and they speak tongues much different from ours, and the lands of the south, where life is rarer and we can never go—this my mother showed me when I was young.

The Devil’s Gospel (Portuguese)

Isso tudo aqui já foi uma puta floresta. Mas ninguém me falou isso, porque minha mãe num fala. Chovia pra um cacete naquela época. Depois isso virou um desertão verde, e por anos a gente viveu super bem. Chovia menos. Um dia, a chuva num veio quando era pra vim e agente esperou mais dois anos até que veio. As plantas mais véia num sobreviveram muito depois disso, os animais morreu tudo rapidinho, e as famílias se separaram. A terra é marrom hoje, é quase areia. A chuva só vem de veiz em quando, e elas não segue mais as estação. Às veiz chove quando tá quente, às veiz quando tá frio, e quando chove chove por meses e mata quase todas as plantas que sobraram. A gente existe sozinho nesse lugar, nessa fronteira entre o norte, onde rola escambo e as pessoas fala umas língua bem diferente das nossas, e o sul, onde a vida é mais rara e a gente nunca vai—isso me minha mãe me mostrou quando eu era pequeno.

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Lonely Fire (English)

Iriqui is a very small town. In what some like to call the middle of nowhere. Way past where Judas lost his boots and just after Judas lost his socks, right there in the cu do mundo is where we are, in what some like to call the middle of nowhere. 

But that’s not exactly true, because the middle of nowhere, by definition, cannot be a known place. Only a lost man can be nowhere, and then the moment he realizes he’s nowhere, he has found himself and must, therefore, be somewhere. I ask you not to waste too much time thinking about the logic behind what I’ve just told you. It’s right and simple, but takes a while to understand, which is, in itself, understandable, since the simpler things in life are always the ones we think about the most. 

Every once in a while we get visitors. It’s usually someone who’s gotten lost driving through the caatinga, and they always thank God they have found us, even though God had everything to do with it. They ask for water and gas, and we give them water but we don’t have gas because we don’t have cars, so we offer them a tour of the cemetery, which they tend to refuse. We try to explain that this is a very important cemetery, it’s the one that inspired Odorico Paraguaçu of Sucupira. But that tends to freak them out because they thought Odorico was just a character on a soap opera.

The ones who get here in the afternoon we tell them to stay the night because there are bandits on the roads and they don’t want to risk being murdered over some gold. So they go to sleep and we bury them before the sun comes up. It may seem dishonest, but I promise you, we are fair minded people, only following God’s orders. The children, though, we tend to spare, because He told us that was okay, but we can’t save them all, and burying children is the worst; they wake up before we’re through, and we’re forced to smother their screams with dirt. 

This morning, a brown haired woman walked into our bakery. Out front she tied her horse to the building’s square column. It was very early so most of us were still asleep. She came up to the counter and asked for coffee. White top against her darker skin. We asked her name and she told us she’d like to see God. 

“He doesn’t come here often, ma’am.”

She exchanged a silver coin for her coffee and walked out, stopping just outside the door to gaze across the land. Through the remaining slits of light around her silhouette, the brown-almost-red-almost-white desert landscape glowed stark as the light began to fade. Rain came over Iriqui and we stepped outside to open our water tanks. Lightning struck deep in the flats, bursting a tree in flames. Unbothered, she finished her coffee and got on her horse. 

“Do you think He’ll come now?”

“Honestly, ma’am, He hasn’t been here in years.”

“I would like to be buried in your cemetery.”

“You’ll have to come back in the afternoon, ma’am. It’s not your time yet.”

She thanked us and began to ride away. We shot her in the back before she could get too far and buried her after the rain stopped.

Lonely Fire (Portuguese)

Iriqui é uma cidade bem pequena. Fica no famoso meio do nada. Bem depois de onde Judas perdeu as botas e depois de onde Judas perdeu as meias, lá no cu do mundo é onde mora todo mundo, no famoso meio do nada. 

O que não é exatamente verdade também, porque no meio do nada, por definição, não pode ser um lugar conhecido, né? Só um homem perdido vai se achar no meio do nada, e no momento que ele se acha no meio do nada, ele vai estar em algum lugar, e não no meio do nada. Te peço só pra não esquentar muito a cabeça com essas coisas. É mais simples do que parece, mas se demora um pouco mesmo pra se compreender, o que é, por si só, compreensivo, né? Afinal, são sobre essas coisas mais simples da vida que todo mundo passa a maior parte do tempo pensando.

Todo mundo também recebe visita de vez em quando. Por aqui, é um pessoal que se perdeu dirigindo pela caatinga, e quando eles chegam eles sempre agradecem à Deus por ter nos encontrado, sem saber que foi o próprio Deus mesmo que os trouxe até aqui. Daí eles nos pedem um pouco de água e gasolina, e todo mundo dá um pouquinho água, mas ninguém tem gasolina porque ninguém tem carro aqui, então todo mundo oferece um tour do cemitério, mas o pessoal costuma recusar. Todo mundo então tenta explicar pra eles que esse cemitério é importante, foi o que inspirou  o Odorico Paraguaçu lá de Sucupira. Só que isso geralmente não cai muito bem com o pessoal, porque eles acham que o Odorico era só uma personagem de novela. 

Quando eles chegam aqui de tarde, todo mundo fala pra eles passarem a noite, porque as estradas são cheias de bandido e ninguém quer morrer por causa de um pouquinho d’ouro, né? Então esse pessoal dorme aqui mesmo e eles acabam enterrados antes do sol nascer. 

Olha, eu sei que isso soa meio desonesto isso aí, mas te prometo, todo mundo aqui é pessoa de bem, só seguindo as ordens de Deus. Agora, as crianças nós costumamos deixar viver, porque Ele disse que podia, mas não dá para salvar todas também, né, e enterrar criança é uma merda; elas sempre acordam antes de acabar, e aí todo mundo tem que afogar os gritos delas com terra. 

Hoje de manhã, uma mulher de cabelos castanhos apareceu na nossa padaria pra tomar um cafézinnho. Top branco, pele escura. Amarrou o cavalo na entrada. Foi bem cedo isso, então tava todo mundo quase dormindo ainda, e todo mundo que tava na padaria perguntou o nome dela e ela só respondeu que queria ver Deus.

“Ele não vem muito aqui, senhora.”

Ela pagou o café com uma moeda de prata, andou até a saída e parou embaixo do batente pra contemplar a paisagem. O marrom-quase-vermelho-quase-branco da caatinga brilhava nas frestas do corpo dela enquanto a luz lá fora se escondia. A chuva veio de repente, que nem chuva de verão, e todo mundo saiu pra abrir os tanques d’água. Um raio caiu no fim da planície e uma árvore pegou fogo. A mulher de cabelos castanhos terminou o café e montou seu cavalo.

“E aí, você acha que Ele vem agora?”

“Oh minha senhora, Ele não vem há anos.”

“Eu quero ser enterrada no seu cemitério.”

“Você vai ter que voltar de tarde, senhora. Não é sua hora.”

Ela agradeceu e pôs-se a cavalgar. Todo mundo atirou nas costas dela antes dela desaparecer na paisagem e todo mundo ajudou a enterrá-la quando a chuva parou.

Fran Attié is a writer born in São Paulo. His writings about culture, soccer and fiction have been published in Berlin, London and New York. His poetry in Brazil, Portugal, Cape Verde and Angola. Graduate of NYU, his thesis was about colonial trauma and foundational literature in Brazil. Digs movies and music. Follow him on Instagram at @fran_attie

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